apanhaste do chão a almofada que te atirei e pousaste-a em cima da cadeira ao lado da porta por onde entraste. pousaste os teus olhos nos meus, no meu lábio tremido a um canto e nas minhas mãos presas junto aos joelhos. os teus olhos cheios de dor olhavam-me. mas eu fiquei quieta. e agarraste na minha mão, olhando-me nos olhos, percorrendo a minha boca com a tua.
e então percebi que quem tinha estragado tudo, quem se tinha afastado de nós tinha sido eu. por não entender a tua dor, por não te abraçar quando precisavas. por não perceber porque não confiavas em mim. se confiavas em mim.
e perguntei-te quem éramos nós. que fazíamos um ao outro. e tu sorriste e disseste 'vamos sendo, vamos vivendo e construindo.' olhei-te bem fundo nos olhos negros e grandes e perguntei-me porque não te abriste comigo. porque não partilhaste esse fardo comigo.
e depois abracei-te. e evoquei o cheiro a laranjas ácidas na cozinha. o meu gel de banho de amora. o teu perfume fresco. e o teu odor corporal em que me viciei. e o gato a cruzar-se comigo na marquise, numa dança em que nos procurávamos evitar. e os pacotes de leite arrumados na prateleira de baixo do armário à direita da banca.
num tributo à plenitude.
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