mutabilidade

Descobri uma qualquer mutabilidade em mim. Dentro de mim, não há só um, somos vários. Repartidos em fatias como queijo, em camadas como constituintes das de sedimentação fóssil. Lutamos cá dentro, com espadas e varapaus, contra aquilo que não podemos agregar e aos quais não nos podemos alapar, aparasitar.

Somos tanto mais mutantes quanto mais tempo perdemos a tentar entender os outros, ou então, por outro lado, somo-lo porque a nossa trajectória é um pouco desviada da de rotação da Terra.

Os desejos, que não são mais do que o umbiguismo desmesurado dos peões terrestres, catalizam a nossa força escondida para acções que não pensámos executáveis. Isto para quem ainda se prende a uma moral estricta, herdada das gerações anteriores. Depois há os Outros. Os outkasted, os que se borrifam para morais estabelecidas e acham que vão conseguir salvar a Terra. A esses, nem a força vital - que aos outros assiste para as acções impensadas - tem o poder de os levar a algum lado.

Eu sou pelo meio termo. À maneira dos tugas. Embora o que realmente mexe em mim - cabeça ou coração - não pare. Soluça nos paralelos das avenidas, estremece com os buracos nas estradas, oscila ao sabor das tempestades de vento. Mas não pára. E, embora nem tudo o que penso seja ainda uma verdade incontestável para mim - é a mim que me interessa o que eu penso -, os raciocínios sucedem-se e aumentam-se, modelam-se, enriquecem-se, riscam-se.

Mas, no fundo, mutantes somos todos nós.

tenho um amigo

Tenho um amigo que aparece. Depois desaparece. E as conversas nunca têm pressa, nunca são despejadas num ai!, nunca são rápidas e superficiais, nem longas e profundas. Um bom timing, a velocidade correcta e a abertura de diafragma suficiente para se respirar e ver bem. E se ouvir, bem nítido, o som de um piano que nenhum dos dois toca.

No entretanto, as conversas que se fazem. Depois sim, depois não. Depois o nevoeiro do mistério. E vem um sorriso profundo feito de sons. E só posso imaginar as expressões que, vistas daqui, são novidade, vistas daí, são tão rotineiras que já nem as topas.

*

Tenho dois amigos que se amam. Olham-se demoradamente, sorriem. Abraçam-se, ele beija-a na testa, ela abraça-o, com imensa ternura. E o resultado desse amor. E é sorrir e olhar para eles e perguntar se o amor pode ser assim tão óbvio.

Tu olhas obliquamente. Sabes como ela é. O tesourinho. A menina de olhar doce que tem a nossa amizade. Ou seja, que está lá pelo meio, meio perdida de tudo, meio achada dentro de si própria. E o amigo, companheiro, amor da vida dela. E o rebento, doçura nos olhos, no sorriso e na gargalhada que dá, estridente, sempre que estou com ele. O amor que lhes pulsa, aos três.

*

Tenho dois amigos que se gostam (não se amam). Um abraça o outro e aproveitam quando eu não estou para se beijarem. Um abraça o outro. E beijam-se. E adormecem nos braços um do outro com tanto carinho que eu não posso deixar de me enternecer. E de perguntar se o amor sabe assim.

Falam e sorriem com carinho. Conhecem-se há pouco, mas gostam-se. E dão as mãos. Um adormece, o outro puxa-o para ele, como que a dar-lhe berço. O silêncio enquanto vemos um filme. Depois a mão descai. Está na altura de toda a gente ir dormir.

*
Levanto-me e, em vez de sono, apetece-me escrever. Sobre como as pessoas acontecem nas vidas umas das outras. Como os caminhos que escolhemos nos despejam no universo nú, só cheio de estrelas. E como cada dia é uma surpresa boa e nova a que temos que dar o valor certo.

Quero o amor como uma estrada.

Quero o amor como uma estrada. Que os ventos, as chuvas que a sacodem provoquem um desgaste mínimo. Que as aventuras a quatro pernas - dois pares, lado a lado - nos levem sempre mais longe do que planeámos à partida. Que os elementos - como os sentidos - a percorram, para sabermos como sentir.

Que as tuas mãos se estendam sobre mim e as minhas sobre ti, não necessariamente sobre os corpos, como quem viaja. E que o teu olhar me abranja e me segure no teu, como uma paisagem que apaixona, e que viaja sempre connosco, à medida que avançamos. E está sempre lá, umas vezes tão presente, outras tão confortável.

Que os momentos bons corram rápido e durem o máximo possível para poderem perdurar na boca e na memória. O sabor das coisas que fazem explodir o coração de espanto. O pôr do sol por trás das nuvens. A luz a reflectir-se por todo o lado, e a espelhar-se no teu rosto. E a ficarmo-nos, sempre mais para trás, onde a paisagem seja toda nossa, de mãos dadas. Abrangida pelos nossos olhos. E que todos os cavalos nos galopem no peito, com a intensidade que o sentimento deixar.

encho de fôlego o coração

encho de fôlego o coração
e as mãos.
preencho os nadas com a tua verdade
que, afinal, não o é.
esgravato no fundo do meu
chão, para achar.
sem saber mais do que se trata.

sem saber que, nos teus olhos,
e nos teus
e nos teus
está a verdade;
a verdade particular de cada um.

egoísmo exacerbado do auto-prazer,
da masturbação mental
e da auto-flagelação
da não concretização da vontade.

retraídos no centro
do próprio sexo,
o corpo a explodir de excitação
em fogos de artifício descontínuos,
na meia noite da paixão.

escrito em 24.02.08, no Altar, rua de Cedofeita, e declamado por Rúben Diniz.

galvanização

galvanizei-me em torno do pedaço de aço que tenho no peito. um aço quadrado, de arestas vivas e picos em alto-relevo.
os lábios franzidos sobre o queixo hirto, o olhar duro sobre a pele, a sobrancelha franzida sobre o olhar carregado, os punhos muito cerrados até deixar as mãos vermelhas.

depois parto. parto, só. vagueio por pores do sol, familiares de tanto os olhar. sinto o vento do Porto que me entra pela roupa e me dilacera a alma. que me descodifica, que desfaz o mistério que eu sou em mim. mas que não mo clarifica perante mim.

preciso fugir para me libertar. dançar em noites de lua cheia e chuva intensa.
relâmpagos, relâmpagos, trovoada intensa dentro de mim.

no chão, os meus restos mortais.

a mulher do astrágalo

Era uma mulher audaz. Depois de se escavacar toda num acidente em território estrangeiro, a mulher pegou nas forças que tinha e foi à faca. Disseram-lhe q o astrágalo estava avariado - algo como o eixo da roda de um carro, vá, lá entendeu ela.

E assim sendo, começou a andar apoiada em duas meninas do Canadá. Mancava ligeiramente. Bem, de quem via de fora, ela tinha um problema congénito de locomoção. Arrastava-se pela casa, ao som dos móveis em que se apoiava. O pé de astrágalo avariado ficava um bocadinho lá atrás, e, de vez em quando, ela sentava-se na cama para ter conversas sérias com o menino. Que isto não podia ser assim, que aquilo era tudo manha do pé. Mimo a mais, era o que ela lhe dava! Por isso ele se estragou. Mas o pé não ouvia e falava em surdina com o astrágalo - como uma consciência - para conspirar contra a mulher cheia de coragem.

Então ela pegou em toda a coragem que tinha e nas meninas canadianas, e foi de novo à faca. Mas a mulher de coragem não era uma mulher qualquer. Na mesa de operações, anunciaram-lhe, antes de a sedarem, que lhe iam tirar o parafuso do pé e 5 dentes! A mulher audaz tinha dentes extra, de nascença. Além dos dentes do sizo - que era obrigada a ter para conseguir suportar a conspiração pé+astrágalo - a mulher coragem tinha um dente extra. Disseram-lhe, ainda, que a iam dividir em peças e vender pela Europa de Leste. Ela sorriu, assentiu, perguntou onde assinava. Só pediu uma coisa:

- Posso ficar com os souvenirs em caixinhas, pa montar uma vitrine lá em casa?


! - astrágalo

abriu

Abriu as portadas da janela redonda. Abriu a cama abafada e deixou-a respirar. Abriu a porta da casa de banho. Abriu as torneiras de água temperada na banheira. Abriu um sorriso ao espelho. Abriu o roupão que abandonou no chão da casa de banho.

Entrou na banheira e sentiu a pele arrepiar-se do quente do contacto. Água-pele, pele a submergir no tépido líquido cheio de espuma. Deixou que a alma entrasse também. E ali permaneceram as duas. As velas apagadas ladeavam a banheira de espuma a transbordar. As mãos pendiam sobre a amurada e os dedos semi-flectidos tocavam o azulejo exterior. A cabeça reclinou-se sobre a popa da banheira, deixando que os cabelos deslizassem, em silêncio, caindo em suspenso. A alma fechou-lhe os olhos e começou a cantar-lhe ao ouvido uma canção doce.

Depois sentiu passos no soalho do quarto. Não abriu os olhos. Só os seus dedos levantaram, levemente e por breves instantes, do contacto com o azulejo da banheira. Ele descalçou-se, tirou as meias e o casaco, e entrou na casa de banho.

- Não acendes as velas?

Ela sorriu, sem abrir os olhos.

- Por favor.

Ele sorriu com o sorriso delicioso que era só dentes. Puxou do isqueiro ao pé do copo das escovas de dentes e acendeu as velas dispersas, tendo atenção aos próprios pés descalços, para não as pisar. A sua mão pousou-lhe nos cabelos longos e ondulados, sem lhes tocar, e ela sorriu.

- Shhh.

E ele sorriu. Largou da mão, mesmo junto ao chão, o isqueiro azul que usara. Passou as mãos no próprio cabelo, da frente para trás. Os dedos dela levantaram as primeiras falanges e ele percebeu que lhe fora dada autorização. Avançou cuidadosamente e apoiou-se na banheira. Meteu um pé, depois outro. A água subia absorvida pelas calças. Ela não se mexia. Quando ele entrou na banheira, ela finalmente baixou os dedos. Ele deitou-se no abraço dela, e a água encheu-lhe o peito. Olhou-a, de olhos fechados. A mão dele pousou sobre o seio nu e deixou-se estar. Ela abriu os lábios.

- Chegaste mesmo a tempo.

E depois, sem abrir os olhos, beijou-lhe longamente a boca seca e a água cobriu-os como um manto. E ambos abriram o corpo à paixão.

...



 

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